Genérico

•05/11/2009 • Deixe um comentário

Houve um tempo em que a opinião era valiosa. Mas como nem todos concordavam, pediam a outros, a gente de seu círculo, conhecidos reconhecidos, que sugerissem novos nomes, novas gentes, em cuja opinião confiavam. Houve um tempo.

Há um tempo em que a opinião é gratuita. E paga-se caro por isso.

Há um tempo em que a opinião é gratuita. A agressão, também.

Velho

•03/07/2009 • Deixe um comentário

Meu pai era velho quando morreu. Sigo seu caminho. Hoje estou assim, um caos, atrasado para tudo, lento. Fico em dúvida diante dos afazeres, questiono minhas habilidades, desconheço minha coordenação; duvido da capacidade em me sustentar em pé; conto até dez e relembro o nome da esposa a fim de apurar alguma sanidade – toda manhã. Se disserem que estou velho, vou xingar, negar, nervoso, confrontado com o que não é novidade.

Minha mãe também partiu tarde. Tinha a pele enrugada, os peitos flácidos, mas a cabeça estava inteira. A velha odiava meu pai, e nunca ficou claro se ela amava os filhos. Tínhamos olhos, cabelos e um pouco da pele diferentes dos dela e do pai. Mas mesmo velha, ela era firme, e no dia em que morreu parecia ter certeza do que fazia.

Hoje não sou minha mãe. Estou mais para meu pai. Com tantos caminhos, tinha de escolher justo um desses dois? Meu pai morreu bem, bem velho. Não lembro com que idade, porque ele mesmo já não tinha certeza. O documento de nascimento foi tirado quando a vida já era em si um pesadelo de mudanças, com ele adolescente.

E eu, eu sou um velho em sua adolescência. Me irrito com a mobilidade atrasada, com a comida engasgada, com o cheiro da bunda que não soube limpar. Subo na balança, cada vez dói mais erguer menos peso. Tomar banho me dá medo, dormir só em casa traz a impressão de que serei assassinado, encontro fantasmas pendurados nas paredes, café de três dias me parece novo, datas de validade não fazem sentido para alguém que já venceu.

Deixo um pouco de vida em cada passo. Pegadas de energia. O contrário do velho não é a criança – é o adulto. É começar a família e aspirar um futuro que passa mais rápido que a velhice. O futuro nos deixa órfãos, manchados, com artrite, e nada disso é considerado quando estamos engatinhando; apenas quando seguramos um filho.

Meu pai era muito, muito velho quando morreu.

Porta

•08/06/2009 • Deixe um comentário

Todos sabem o que fazer diante de uma porta fechada: girar a maçaneta para abri-la. Mas a porta era grande. Erguia-se alta, negra, até encostar no teto. Dava a sensação de que ultrapassava o pé direito. Parecia mais intimidadora que a porta do inferno. Talvez fosse a própria. Mas acredito que era apenas mais uma porta. Já para ele que estava ali, paralisado… Bom, ele era apenas mais um baixinho com vergonha de ser incapaz de mover aquele peso descomunal. A verdade era que as pás suspendiam-se leves, apoiadas em grandes e grossas dobradiças. Abrir aquelas portas era mais fácil do que parecia. Mesmo assim o anão saiu de lá. Correu para casa, voltou para onde era rei e onde as portas tinham seu tamanho. Não tinham, devo frisar, o tamanho dos filhos, da mulher, dos pais, das tias. Tinham a medida exata de seu tamanho, e por ali ele gostava de atravessar. Preferia ficar com aquelas portas e desconhecer que prêmio haveria atrás de outras, quando elas pareciam arrebatadoras. E diante daquelas gigantescas folhas de ferro, a sensação era de esmagamento. Sentia que sua presença era um desafio desmedido, que a porta estava pronta para destruí-lo como em um game de aventura. O colossal monumento que restava ante seus pés não poderia ser atravessado por ele, aquele anão. Por isso estacara. Entretanto, ainda sentia-se capaz de fugir, de dar a volta, de entrar por trás, quem sabe, ou de desisitir de tudo.

E voltou. Não via mais as lâminas. Estava já na rua, indo em direção a casa, quando a porta se abriu, o que ele não viu, e continuou seu caminho. Deixou-a sozinha, carente, clamando por alguém que a penetrasse.

Sem opção, a porta engoliu um passante, o que por ora a contentou. Satisfez-se, aquela porta; dionaea.

Perguntas sem fim

•15/04/2009 • Deixe um comentário

Qual é o tempo de um texto? De quanta memória precisamos até que algo se forme e vire criatividade? E o twitter, meu deus, de que adianta? Um texto nos pertence quando o mundo nos inspira? Quando escrito para desopilar, merece ser lido? Qual é o efeito de um cachimbo? Por que podemos morrer jovens, adultos ou velhos, não importa a idade? Seria aprender finito e se arrepender infinito? O espaço que nos une é formado por um punhado de minutos? Por que não contamos distâncias apenas com cápsulas de tempo? Einstein não seria mais popular? Com órbita circular, o mundo não consegue deixar de caminhar para seu fim? Como pode o negro absorver a luz e ser a ausência dela ao mesmo tempo? Deveria estar cheio de luz potencialmente armazenada, não? Por que emoções turvam a lógica? Ou, porque diante de problemas lógicos cogitamos soluções emabsadas emocionalmente? Por que garantir a perpetuação da espécie? Por que violentar a espécie? Por que existe paciência e impaciência? Prazer e irritabilidade? Por que nem todos os erros ensinam? Por que gerações recomeçam, em vez de dar continuidade? Por que o espelho não diz a verdade? Por que as coisas se atraem – de átomos a estrelas? Por que somos tão pequenos, mas não nos damos conta? Por que o ego nos engana?

O mais infeliz dos nus

•08/04/2009 • 1 Comentário

A fumaça negra que saía da câmara o enchia de expectativa. Antecipava o momento em que entraria ali, queimaria e se tornaria passado. Não esperava, que as cinzas o resgatassem no tempo, tornassem-no eterno, ou o deixassem vivo para sempre.

Morrer não poderia ser assim tão difícil, mas em Auschwitz passar não tinha qualquer significado. Queria ser esquecido, cremado, apagado – não se importava com maus tratos ou tortura. Era, dos famintos, o que mais gostava daquilo. Sentia-se enebriado, tinha um coração sádico, e sonhava com o calor da câmara.

Que decepção teria se lá entrasse e respirasse gás. Ou que instisfação se participasse das filas de quatro ou cinco mortos com uma única bala. Queria o fogo, a danação de um momento que o levasse à redenção. Tremia ao ver uns magros pelados nas filas, sentia o prazer de ser um suicida sem culpa, excitava-se com o fim agonizante.

Aí, sem porquê, a guerra acabou. Ficara para trás na lista. Antes dele morreram velhos, mulheres e crianças. Às vésperas da própria morte, a vida ganhava outra perspectiva para todos, revestia-se de esperança e empreendedorismo, enquanto ele ficara de fora da contemplação. O desejo mais realizável seria o menos atendido.

Precisaria de mais dez anos até morrer, por qualquer que fosse o motivo. Mas naquele momento, o da abertura dos portões, naquela hora em que todos sentiam-se felizes por estarem abandonados e perdidos, sentira-se o mais infeliz dos nus. Que outro caminho seria melhor?

De volta à prancheta.