Ele era assim preto, da cor de um lodo arenoso e velho, embora seco, feito de nojo e recíproca, em busca de nada, só escrevia, com as mãos. Era poeira comprimida, negra, que se desfazia à medida que tudo tocava, como carbono mal elaborado, formado pelo tempo, acúmulo de pressão de repente queimado, vertido em texto.
Começou com a ponta de um dedo, que gastou. Gastou, depois, o outro. De todos os dedos da mão, restaram tocos. Aí, quebrava os do pé quando rabiscava, perdia-os. Sempre texto, preto, cru, um pó que borrava o papel e se esfregado ficava ilegível, pastel. Um pó que soprado voava. A bem da verdade, lendo na folha nem parecia grande coisa, nada dizia, era apenas o corpo do homem cuspido, o carvão grudado, migrado homem/folha.
Já sem dedos no pé, traço tosco, grosseiro, apelou para muros brancos que chuvas sem esforço apagavam. Torrentes que levavam aos poucos o desencontrado corpo do homem de carvão bueiros abaixo. Iam os braços, as canelas, pernas. Quando sobravam apenas cabeça e tronco, contou com ajuda alheia. Doou-se, pediu que quaisquer pessoas esfregassem nele algo que tingir desejassem. Mas pessoas passavam, compadecidas, não o obedeceram, mas abraçavam-no, e assim involuntariamente iam gastando o homem de carvão. Que quando sumiu, completamente, fora esquecido, pois nunca, ninguém, trilhou os caminhos pelos quais ele se gastou. E o lençol do leito, ao fim de tudo, foi parar na máquina de lavar.





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