Garimpo
Sobre um balcão de madeira, forrado com jornal e filme plástico, ele organizava cada órgão, cada peça de carne. Virava do corpo ao balcão, do balcão ao corpo, trazendo o fígado, trocando o cutelo pela faca. Dois focos de luz iluminavam o cadáver, e ele, com uma lanterna branca, clareava partes nas quais alguns músculos faziam sombra. O melhor jeito de encontrar algo era cavando. Revolvia o corpo, saía um rim, o baço. Perfurou a bexiga por engano, usou um aspirador para sugar a água. No chão, o sangue coagulava.
A sala cheirava a açougue.
Animou-se quando pegou o coração. Olhou os átrios, os ventrículos, fingia bombeá-los. Havia passado por ali. Depois de extirpar o coração, foi aos pulmões, fez rasgos de cima a baixo, pleura. Nada de valor.
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O marido não existia. A vó morava longe. Só precisava de um favor para aquele dia.
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Nunca tinha aberto um corpo na vida. Sem saber o que fazer, começou desmembrando-o. Arrancou braços e pernas. Com eles separados, dispostos no balcão, lado a lado, esperava que fosse mais fácil chegar a algum lugar. Com uma barra de metal quebrou a cavidade toráxica, que, amolecida, ficou mais receptiva à faca. Talhou as costelas, depois, as saboneteiras. Abriu o tronco como se fosse um livro às avessas, cada página para um lado. Pendurados nas nesgas de pele, pedaços das costelas. Viu o coração. Cortou a cava, arrancou-o com um puxão, maravilhado. Algo havia passado por ali.
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A filha viu na parede uma foto do Sebastião Salgado. Perguntou como ali podia haver riqueza.
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Já falei do baço? Duodeno, apêndice. Varreu os intestinos, vomitou com o cheiro ruim. Abriu o útero, os pequenos ovários. Quebrou a coluna, procurou o miolo. Revirou o estômago ácido, subiu pelo esôfago, cortou a língua ao meio. Resolveu separar a cabeça do corpo. Quebrou o maxilar, destrinchou a mandíbula, abriu o nariz, arrancou os olhos. Com um martelo, macerou o crânio, perfurou-o. Fez um buraco que pouco vazava.
Sob o couro cabeludo, massa de ossos, uma segunda pele. Alargou o furo com a unha, já não tinha paciência. O dedo afundou, amassou o córtex, fez um buraco no volume esponjoso. Mais uma vez, bateu com o martelo. A cabeça ficou sem forma, mole sobre a mesa. Com a faca, cortou de ponta a ponta o que mantinha o cérebro unido à carne. Puxo-o. Nada. Colocou numa panela de inox.
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Ela mal tinha falado com ele na vida. Achava-o um velho simpático, embora considerasse seu olhar sombrio e estranhasse o fato de ele nunca receber visitas.
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Aquele corpo não tinha nada. As paredes da sala estampavam gotas de sangue, esguichadas em momentos de concentração. O chão estava sujo, o balcão forrado cheirava a ferro. Não era o que procurava.
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O telefone da mãe tocou. Tinha que sair. Deixou a menina com ele. Atravessou a porta, agradecida pelo favor, obrigada, somente até amanhã, estão precisando de mim. Ela já está quase dormindo. O senhor é tão bom! Fico lhe devendo um favor! Não se preocupe, que ela não incomoda. Vale ouro essa menina!
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Não vale nada.





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