Você conhece algum super-herói?
Eu conheço.
Sou eu.
E se trata de modéstia.
Um cidadão que ignora o futuro só pode ser um super-herói. Alguém que sente aflição do despertar à hora da insônia, que se satisfaz ao viver em débito permanente, só pode ser um… você sabe.
O super-herói convive com a idéia de que nunca será resgatado, se contenta em permanecer salvador. Sabe que está à margem da redenção e não se importa em desconhecer a alegria que é ser puxado de sob o gelo.
Um super-herói é aquele a quem não se ajuda. Mas teve mãe que o levou para tomar as vacinas, e ainda assim fica resfriado, ofega, se arranha, se assusta, se quebra, se masturba, se derruba, se levanta, se imita, se ignora, se odeia, se admite.
Só é um super-herói quem suporta tanto, quem não voa, quem se torna alvo, se desvia, não se mata. Só assim pra ser super-herói. E eu sou. Isso eu sei. Para não ser um super-herói é preciso algum talento, coisa que não tenho. Tenho somente o movimento me empurrando ao sucesso heróico. É inevitável, indiscutível, detestável, incrível, predicável, incontornável, ecumênico, herético, intangível, sufocante, ser quem sou.
Antes fosse meu pai.





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