O mais infeliz dos nus
A fumaça negra que saía da câmara o enchia de expectativa. Antecipava o momento em que entraria ali, queimaria e se tornaria passado. Não esperava, que as cinzas o resgatassem no tempo, tornassem-no eterno, ou o deixassem vivo para sempre.
Morrer não poderia ser assim tão difícil, mas em Auschwitz passar não tinha qualquer significado. Queria ser esquecido, cremado, apagado – não se importava com maus tratos ou tortura. Era, dos famintos, o que mais gostava daquilo. Sentia-se enebriado, tinha um coração sádico, e sonhava com o calor da câmara.
Que decepção teria se lá entrasse e respirasse gás. Ou que instisfação se participasse das filas de quatro ou cinco mortos com uma única bala. Queria o fogo, a danação de um momento que o levasse à redenção. Tremia ao ver uns magros pelados nas filas, sentia o prazer de ser um suicida sem culpa, excitava-se com o fim agonizante.
Aí, sem porquê, a guerra acabou. Ficara para trás na lista. Antes dele morreram velhos, mulheres e crianças. Às vésperas da própria morte, a vida ganhava outra perspectiva para todos, revestia-se de esperança e empreendedorismo, enquanto ele ficara de fora da contemplação. O desejo mais realizável seria o menos atendido.
Precisaria de mais dez anos até morrer, por qualquer que fosse o motivo. Mas naquele momento, o da abertura dos portões, naquela hora em que todos sentiam-se felizes por estarem abandonados e perdidos, sentira-se o mais infeliz dos nus. Que outro caminho seria melhor?
De volta à prancheta.





incrível. é quase palpável a dor desse sujeito. que morte ingrata teria ele, sem as honras da História.
beijo, noivo.
vivian disse isso em 10/04/2009 às 18:54 |