Porta

Todos sabem o que fazer diante de uma porta fechada: girar a maçaneta para abri-la. Mas a porta era grande. Erguia-se alta, negra, até encostar no teto. Dava a sensação de que ultrapassava o pé direito. Parecia mais intimidadora que a porta do inferno. Talvez fosse a própria. Mas acredito que era apenas mais uma porta. Já para ele que estava ali, paralisado… Bom, ele era apenas mais um baixinho com vergonha de ser incapaz de mover aquele peso descomunal. A verdade era que as pás suspendiam-se leves, apoiadas em grandes e grossas dobradiças. Abrir aquelas portas era mais fácil do que parecia. Mesmo assim o anão saiu de lá. Correu para casa, voltou para onde era rei e onde as portas tinham seu tamanho. Não tinham, devo frisar, o tamanho dos filhos, da mulher, dos pais, das tias. Tinham a medida exata de seu tamanho, e por ali ele gostava de atravessar. Preferia ficar com aquelas portas e desconhecer que prêmio haveria atrás de outras, quando elas pareciam arrebatadoras. E diante daquelas gigantescas folhas de ferro, a sensação era de esmagamento. Sentia que sua presença era um desafio desmedido, que a porta estava pronta para destruí-lo como em um game de aventura. O colossal monumento que restava ante seus pés não poderia ser atravessado por ele, aquele anão. Por isso estacara. Entretanto, ainda sentia-se capaz de fugir, de dar a volta, de entrar por trás, quem sabe, ou de desisitir de tudo.

E voltou. Não via mais as lâminas. Estava já na rua, indo em direção a casa, quando a porta se abriu, o que ele não viu, e continuou seu caminho. Deixou-a sozinha, carente, clamando por alguém que a penetrasse.

Sem opção, a porta engoliu um passante, o que por ora a contentou. Satisfez-se, aquela porta; dionaea.

~ por Rafael Bravo Bucco em 08/06/2009.

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