Velho

Meu pai era velho quando morreu. Sigo seu caminho. Hoje estou assim, um caos, atrasado para tudo, lento. Fico em dúvida diante dos afazeres, questiono minhas habilidades, desconheço minha coordenação; duvido da capacidade em me sustentar em pé; conto até dez e relembro o nome da esposa a fim de apurar alguma sanidade – toda manhã. Se disserem que estou velho, vou xingar, negar, nervoso, confrontado com o que não é novidade.

Minha mãe também partiu tarde. Tinha a pele enrugada, os peitos flácidos, mas a cabeça estava inteira. A velha odiava meu pai, e nunca ficou claro se ela amava os filhos. Tínhamos olhos, cabelos e um pouco da pele diferentes dos dela e do pai. Mas mesmo velha, ela era firme, e no dia em que morreu parecia ter certeza do que fazia.

Hoje não sou minha mãe. Estou mais para meu pai. Com tantos caminhos, tinha de escolher justo um desses dois? Meu pai morreu bem, bem velho. Não lembro com que idade, porque ele mesmo já não tinha certeza. O documento de nascimento foi tirado quando a vida já era em si um pesadelo de mudanças, com ele adolescente.

E eu, eu sou um velho em sua adolescência. Me irrito com a mobilidade atrasada, com a comida engasgada, com o cheiro da bunda que não soube limpar. Subo na balança, cada vez dói mais erguer menos peso. Tomar banho me dá medo, dormir só em casa traz a impressão de que serei assassinado, encontro fantasmas pendurados nas paredes, café de três dias me parece novo, datas de validade não fazem sentido para alguém que já venceu.

Deixo um pouco de vida em cada passo. Pegadas de energia. O contrário do velho não é a criança – é o adulto. É começar a família e aspirar um futuro que passa mais rápido que a velhice. O futuro nos deixa órfãos, manchados, com artrite, e nada disso é considerado quando estamos engatinhando; apenas quando seguramos um filho.

Meu pai era muito, muito velho quando morreu.

~ por Rafael Bravo Bucco em 03/07/2009.

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