Todo dia esse Fabiano aparece aqui, calçando alpargatas furadas e carregado de seus poucos pertences. Traz um aió de alça remendada a tiracolo, no qual pendura um casaco de motoboy todo esfolado. A camisa manchada é aberta até o meio do peito. Tem olhos azuis, cabelos e barba ruivos, pele queimada. Parece um retirante holandês. Tomasse banho não seria pobre. Mas vem fedido, com cães em volta. Chama-os Moby e Dick: um macho e uma fêmea prenhe que parecem limpos, mais que o dono.
Uns meses atrás esse Fabiano vinha, pegava uma porção dos bilhetes, rabiscava-os, olhava os números sorteados expostos no cartaz e saía deixando seu cheiro aqui na lotérica. Moby e Dick esperavam na rua. Quando Fabiano se demorava mais que dois minutos, seu Inácio o empurrava fora, evitando tocá-lo para não precisar lavar as mãos. Fabiano ficava ressabiado, mas sumia de vista, cabisbaixo, murmurando nada que alguém entendesse. Dia seguinte voltava, franzino.
Agora, o hábito é outro. Faz questão de parar na frente da casa, fica espiando, assobia, ressoa um psiu. Quem está dentro olha, depois desolha, faz que não vê aquele comum cuja miséria torna desconhecido. Eu vejo sempre, fico com dó, tenho o coração mole como diz meu namorado, mas tenho ordem de ignorar o homem que, tivesse outro cheiro, não seria repulsivo. Fico com pena porque Fabiano sabe falar mas não sabe pensar, age que nem bicho. Ele vem e fica ali, espreitando, com um daqueles rascunhos do jogo rabiscados na mão. Sua aparência afasta quem entraria para jogar.
Quando o seu Inácio se enche desse espantalho, sai detrás da porta blindada, abre a bancada, pede licença aos quatro clientes da fila e ruma à porta. Para sobre a soleira, se equilibrando com ar ameaçador. Dick late e dá voltas em torno de si; Moby se lambe. Fabiano parece minúsculo, enquanto seu Inácio é um gigante. Pobreza não é menos que riqueza? Depois de um esforço cavalar, Fabiano rosna. Até que junta umas sílabas:
-É o premiado!
Sempre é assim. O seu Inácio balança a cabeça; espaçoso, enxota o Fabiano, que sai reduzido. No dia seguinte o mendigo volta, mas não mendiga. Psiu! Depois de meia hora, seu Inácio pisa na soleira e Fabiano diz como quem limpa a garganta:
- É o premiado!
A voz gutural não assusta o chefe, que dá de ombros. Diz que vai chamar a polícia. Fabiano geme outra vez.
-É o premiado!
Ao ver seu Inácio sacar do celular, Fabiano recua. Estala os dedos das mão peludas como que ordenando Moby e Dick a se mexer. Se os cães não o acompanham, volta um passo atrás e dá-lhes um safanão, com o peito largo. Os cães então o seguem, apequenados.
Desde que comecei a trabalhar aqui, Fabiano aparece todo dia. Antes, vinha com uma esperança desanimada, agora, volta com uma tristeza comprida. Até já sugeri de a gente fazer uma vaquinha, dizer que ele ganhou cinquenta, cem, até duzentos – apenas o suficiente para libertá-lo daquela fé, do bilhete que preencheu mas nunca jogou. Entretanto, são todos mesquinhos e seu Inácio fala que é contra, que vai que o Fabiano acha pouco, que se enfeza e ataca todo mundo? Quando ouço isso fico sem argumento, acho até que pareço o pobre. Balanço a cabeça em acordo, olho os outras caixas e, muda, aceito pouco pela esperança de outro coitado.
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