eu: Outro dia aconteceu um troço engraçado com o José. A gente fez amor, porque ele estava muito excitado. Me beijava toda, me apertava, me apalpava e fazia aquelas outras coisas.
An3: Que coisas?
eu: Ah, ele fez tudo, não sabe não?
An321: Sei, mas quero ver você dizer.
eu: Ouve, o que foi interessante veio depois. A gente fez esse amor todo, repentino, gostoso. Eu não gozei na hora, mas depois me resolvi. Ele gozou fora e se jogou de lado, estirado, com a cabeça afundada no travesseiro.
An321: Isso não é novidade.
eu: Não mesmo. O que achei estranho foi o telefonema.
An321: Telefonema? Mas e o sexo?
An3: Que coisas?
eu: Ah, ele fez tudo, não sabe não?
An321: Sei, mas quero ver você dizer.
eu: Ouve, o que foi interessante veio depois. A gente fez esse amor todo, repentino, gostoso. Eu não gozei na hora, mas depois me resolvi. Ele gozou fora e se jogou de lado, estirado, com a cabeça afundada no travesseiro.
An321: Isso não é novidade.
eu: Não mesmo. O que achei estranho foi o telefonema.
An321: Telefonema? Mas e o sexo?
eu: Então, me ouve que vou chegar lá. Eu fui me limpar e ouvi ele roncar, aí peguei a ducha e lavando me refestelei. Demorei uns trinta minutos imaginando que ele gozava era depois de mim, e não antes.
An321: Homens!
eu: Pois é. Quando voltei ao quarto, afim de ver a novela nos braços dele, está sentado na cama, acordado, achando a TV super interessante. Normalmente ele dorme até o dia seguinte, mas quando voltei, ele tinha despertado, parecia que na cabeça dele era já de manhãzinha. Sentei na cama, nem perguntei nada, pedi para ele se deitar, para descansar. Ele se recostou, me olhou nos olhos, disse que me amava, mas que estava com vontade de tomar sorvete.
An321: Sorvete?
eu: Isso. Eram umas nove e meia, a Norma esboçava um plano para prender o Leo para sempre, mas ele veio com esse papo, então perdi o fio da meada. Ele levantou, se vestiu, foi à sapateira e pegou dois pares de sapatos. Meteu os pés, cada um em um pé de um par diferente!
An321: Ele saiu com sapatos diferentes?
eu: Saiu. E não voltou por uma semana.
An321: Péraí. Faz quanto tempo que a gente não se fala, amiga?
eu: Vixe, uns dois meses.
An321: É?
eu: Escuta! Daí ele saiu. Não, calma, daí ele disse que estava sentindo um negócio estranho, uma vontade que era dele, mas não somente dele, uma vontade que era dele e de cada pé, como se cada pé pudesse andar por caminhos completamente diferentes.
An321: Como assim? Cada um pra um lado?
eu: Você entendeu! Isso mesmo. Ele abriu um espacato assim, depois de contorcer muito a cara, fechou de novo as pernas e saiu perambulando, todo torto. Ia pra lá, depois mudava de direção. Sempre em frente, mas como se estivesse dividido, como se fosse orientado por dois GPS.
An321: Ele estava bêbado.
eu: Depois de termos feito amor? Ele não estava. Ele fica sóbrio depois que goza. Ou melhor, ele dorme depois que goza, especialmente quando está bêbado. Ele parecia mesmo era um condutor de dois barcos, sei lá.
An321: Mas e ele sumiu?
eu: Então, não! Ele saiu. E da janela eu vi ele tentar ir para o mini-Extra comprar o sorvete. O passo era a coisa mais ridícula: uma perna ia numa direção, a outra apontava outro caminho. Ele parecia um indeciso andando pelos dois caminhos que saem duma encruzilhada.
An321: Isso não, não dá!
eu: Calma! Fica pior, muito pior. Fica de um jeito que você vai fechar o gtalk na minha cara. Mas nem adianta, porque daí vou escrever o resto e te mandar no email mesmo. Então presta atenção.
An321: To fazendo um chá, mas tô perto.
eu: Ok. Chá de que?
An321: De morango.
eu: Uhm, já pensou como é estranho a gente tomar chá de morango? Chá devia ser de erva, de folhas. Morango a gente devia comer, a fruta é mais gostosa que o chá. E tem o suco…
An321: Volta pro José.
eu: Tá. Então, ele tava nesse passo maluco, dividido. Fiquei com medo quando foi atravessar a rua. Parecia que não ia dar tempo, que ele ia ficar ali perdido e um caminhão ia esmagá-lo. Quando o sinal abriu eu berrei mesmo. O vizinho do 52, aquele gordo suado que pegou o elevador naquele dia da pizza com a gente, lembra?
An321: Ahã.
eu: Ele apareceu na varanda, disse psiu! Odeio ele. Mas eu gritei de novo, nem tchum, e o José deu um passo atrás, um pra frente, outro, puxou a perna rebelde com as mãos, e chegou na calçada. Fiquei assustada, achei que ele ia morrer.
An321: É mesmo.
eu: A sorte é que não passou nenhum carro, nem moto, nem bicicleta! Hehehehhe
An321: Ahahahah Você está inventando tudo isso, né! Fazendo piada comigo.
eu: Não, eu juro! É verdade. Você acha que eu ia perder esse tempo todo? Tenho que terminar um keynote aqui. Daqueles, sabe?
An321: …
eu: Sabe?
An321: …
eu: Hei!
An321: …
eu: Vou te mandar um email enooooooorme!
An321: Oi, oi! Eu tava pegando a água que ferveu. É por isso que amo a vida de frila.
eu: Invejaaaaa!!!! Mas, então, o José foi andando, um passo a frente, dois pra trás, três pra frente, uma coisa bizarra, quando, no meio do caminho, ele abriu o espacato de novo.
An321: Na rua?
eu: Ridículo! Na hora eu pensei em acabar tudo. Tinha um mendigo tomando cachaça em uma garrafinha de dolly guaraná, ou sei lá do que, que riu muito da cara dele. Eu ouvi a risada da sacada. As pernas do José iam abrindo, e o mendigo ia rindo, abriam mais, e o pobre babava de rir.
An321: Você viu da janela o mendigo babando?
eu: Aff, ok, não vi… Mas do jeito que ele tava rindo alto, deu pra imaginar. Mas eu não imaginei o que aconteceu depois.
An321: O que?
eu: O José se rasgou no meio. O mendigo parou de rir na hora, ficou chocado!
An321: Ele parou de rir?
eu: Ué, e tinha como continuar rindo? Eu fiquei desesperada. Você não tem ideia de como é ver seu marido se rasgar no meio, se dividir, virar dois?
An321: Ouvi de casos assim.
eu: Pois é, você não ouviu de casos assim, você ouviu do caso do José. Deu em tudo que é jornal. Me ligaram, dei entrevista. Fiquei chique!
An321: Uma estrela! Hahahah
eu: Heheheh Pois é. Mas fiquei traumatizada. Quando ele se rasgou no meio, as tripas escorreram, parte ficou pendurada, a outra parte ele carregava.
An321: Como assim?
eu: Quando ele se rasgou, quando cada pé ia pra um lado diferente, metade do corpo continuou indo para o mini-Extra, né? Era a metade que tava com larica. A outra metade tava a fim de dar uma volta, de sair por aí mesmo. Essa metade fujona segurou a porção de tripas que lhe cabia e seguiu caminho, dobrando a esquina.
An321: Mas como?
eu: Foi pulando, igual Saci.
An321: E o sangue?
eu: Isso foi estranho. Não saiu sangue. Exceto pela exposição das nojeiras internas, era como se existisse um coração para cada metade. Só sei que daí uma metade foi pro mini-Extra.
An321: Ele não voltou pra casa?
eu: Não! Oha que doido esse José! Ele não voltou, agiu como se tudo aquilo fosse normal, como se no máximo tivesse peidado no elevador.
An321: E você?
eu: Meu, eu estava pronta pra dar uma bronca nele quando ele voltasse pra casa. Fiquei até pensando se eu tinha que dar duas broncas para quando cada metade retornasse…
An321: Putz, foda mesmo.
eu: Foda? Eu fiquei puta. Menina, que papelão. Mas aí a metade que foi no mini-Extra foi a metade que ficou com o celular no bolso. Me ligou do mini-Extra pedindo para eu levar dinheiro lá, porque a carteira, claro, tinha ficado no bolso do farrapo de jeans que vestia quem? A outra metade!
An321: Cara, que saco!
eu: Sem noção. Ele agindo assim, comigo, como se fosse normal. E querendo que eu fosse lá no mini-Extra, me expor. Todo mundo conhece a gente.
An321: Merda.
eu: Total. Daí eu mandei ele voltar logo, e que voltasse com o resto dele, porque eu não ia perder mais tempo com ele se tivesse, eu também, que me dividir em duas para brigar com uma e depois com outra metade.
An321: Você tá certa! Não rola, mesmo, amiga!
eu: Não, mas aí o doido tem que ir saltitando bairro afora, atrás da metade transviada. Daí ele ficou uma semana fora, só porque vestiu sapatos diferentes, se dividiu e perdeu metade de si mesmo.
An321: Putz.
eu: Putz? Ele voltou fedendo a merda, urina e cerveja. A metade que fugiu foi pedindo goró, né, de bar em bar, abraçada nas próprias tripas. Os viados dos barmen davam, assim, de boa, como se fosse comum dar bebida pra gente repartida.
An321: Bom, mas essa metade tava com a carteira, né?
eu: Mas nem encostou nela! Ia pedindo. E se fizessem alguma maldade? E se colocassem um boa noite cinderela e roubassem o rim? Tava fácil. Vai que fizeram isso… O José não me conta. Ele voltou fedendo e mau remendado. Só sei que as metades se juntaram de novo em algum momento lá, e assim que se juntaram, ele tirou os sapatos, pra evitar pepinos. Chegou com o pé preto. Ele jura que foi isso dos sapatos difenrentes que deu o problema. Mas, sei lá, não tenho certeza.
An321: Não? Como assim?
eu: Poxa, pensa, e se foi tudo uma desculpa? E se o que ele queria era ficar um tempo longe de mim? E se a metade que fugiu fosse a metade que diz mais sobre o José, enquanto a metade que ficou fosse a metade dissimulada e mentirosa, aquela que diz que ama pra me levar pra cama?
An321: Será? Acho que não. Sinceramente. Se ambos voltaram é porque te amam.
eu: Amiga, sei lá. Só sei que não é mais a mesma coisa, sabe? Eu fico desconfiada. Não me sinto tão confortável. Agora sinto como se eu dormisse com dois, às vezes parece que vejo através dele, da fenda que divide o corpo, que se abre entre os pontos.
An321: Ele ainda não grudou por inteiro?
eu: Não. É esquisito. Fico pensando que talvez uma parte se descole e saia porta afora. Que eu tenha que correr atrás, porque a outra ficou dormindo na cama.
An321: Putz.
eu: É. Mas, sei lá…
An321: Que foi?
eu: Nada… Sei lá…
An321: Que???
eu: Na verdade, verdade mesmo…
An321: Diz!
eu: É que não falei isso pra ninguém…
An321: Fala logo!
eu: Ok, vou dizer antes que eu desabe. A verdade é que eu acho que isso aconteceu porque ele tem outra. Só pode ser.
An321: Outra? Como assim? Não é viagem da sua cabeça? Tem como provar?
eu: Se tivesse não tava eu aqui achando… Eu só acho. Ele tem outra, com certeza, e tentou me largar naquela noite. Ao menos uma parte tentou.
An321: Homens…
eu: Pois é, amiga, homens! Mas eu amo ele. Acho que vou é dar um tempo, parar de pensar nisso. Senão eu é que vou acabar dividida entre a dúvida e a insegurança.
An321: É, desencana. Vou pegar mais chá, depois te conto do Jorge. O que ele fez foi muito pior quando a gente se separou, lembra? Me dá cinco que já volto e te conto.
eu: Tá. Agora vou fazer aquele key, mas pode ir falando que tô ouvindo.
An321: …
eu: …
An321: …
eu: …
eu: Pois é. Quando voltei ao quarto, afim de ver a novela nos braços dele, está sentado na cama, acordado, achando a TV super interessante. Normalmente ele dorme até o dia seguinte, mas quando voltei, ele tinha despertado, parecia que na cabeça dele era já de manhãzinha. Sentei na cama, nem perguntei nada, pedi para ele se deitar, para descansar. Ele se recostou, me olhou nos olhos, disse que me amava, mas que estava com vontade de tomar sorvete.
An321: Sorvete?
eu: Isso. Eram umas nove e meia, a Norma esboçava um plano para prender o Leo para sempre, mas ele veio com esse papo, então perdi o fio da meada. Ele levantou, se vestiu, foi à sapateira e pegou dois pares de sapatos. Meteu os pés, cada um em um pé de um par diferente!
An321: Ele saiu com sapatos diferentes?
eu: Saiu. E não voltou por uma semana.
An321: Péraí. Faz quanto tempo que a gente não se fala, amiga?
eu: Vixe, uns dois meses.
An321: É?
eu: Escuta! Daí ele saiu. Não, calma, daí ele disse que estava sentindo um negócio estranho, uma vontade que era dele, mas não somente dele, uma vontade que era dele e de cada pé, como se cada pé pudesse andar por caminhos completamente diferentes.
An321: Como assim? Cada um pra um lado?
eu: Você entendeu! Isso mesmo. Ele abriu um espacato assim, depois de contorcer muito a cara, fechou de novo as pernas e saiu perambulando, todo torto. Ia pra lá, depois mudava de direção. Sempre em frente, mas como se estivesse dividido, como se fosse orientado por dois GPS.
An321: Ele estava bêbado.
eu: Depois de termos feito amor? Ele não estava. Ele fica sóbrio depois que goza. Ou melhor, ele dorme depois que goza, especialmente quando está bêbado. Ele parecia mesmo era um condutor de dois barcos, sei lá.
An321: Mas e ele sumiu?
eu: Então, não! Ele saiu. E da janela eu vi ele tentar ir para o mini-Extra comprar o sorvete. O passo era a coisa mais ridícula: uma perna ia numa direção, a outra apontava outro caminho. Ele parecia um indeciso andando pelos dois caminhos que saem duma encruzilhada.
An321: Isso não, não dá!
eu: Calma! Fica pior, muito pior. Fica de um jeito que você vai fechar o gtalk na minha cara. Mas nem adianta, porque daí vou escrever o resto e te mandar no email mesmo. Então presta atenção.
An321: To fazendo um chá, mas tô perto.
eu: Ok. Chá de que?
An321: De morango.
eu: Uhm, já pensou como é estranho a gente tomar chá de morango? Chá devia ser de erva, de folhas. Morango a gente devia comer, a fruta é mais gostosa que o chá. E tem o suco…
An321: Volta pro José.
eu: Tá. Então, ele tava nesse passo maluco, dividido. Fiquei com medo quando foi atravessar a rua. Parecia que não ia dar tempo, que ele ia ficar ali perdido e um caminhão ia esmagá-lo. Quando o sinal abriu eu berrei mesmo. O vizinho do 52, aquele gordo suado que pegou o elevador naquele dia da pizza com a gente, lembra?
An321: Ahã.
eu: Ele apareceu na varanda, disse psiu! Odeio ele. Mas eu gritei de novo, nem tchum, e o José deu um passo atrás, um pra frente, outro, puxou a perna rebelde com as mãos, e chegou na calçada. Fiquei assustada, achei que ele ia morrer.
An321: É mesmo.
eu: A sorte é que não passou nenhum carro, nem moto, nem bicicleta! Hehehehhe
An321: Ahahahah Você está inventando tudo isso, né! Fazendo piada comigo.
eu: Não, eu juro! É verdade. Você acha que eu ia perder esse tempo todo? Tenho que terminar um keynote aqui. Daqueles, sabe?
An321: …
eu: Sabe?
An321: …
eu: Hei!
An321: …
eu: Vou te mandar um email enooooooorme!
An321: Oi, oi! Eu tava pegando a água que ferveu. É por isso que amo a vida de frila.
eu: Invejaaaaa!!!! Mas, então, o José foi andando, um passo a frente, dois pra trás, três pra frente, uma coisa bizarra, quando, no meio do caminho, ele abriu o espacato de novo.
An321: Na rua?
eu: Ridículo! Na hora eu pensei em acabar tudo. Tinha um mendigo tomando cachaça em uma garrafinha de dolly guaraná, ou sei lá do que, que riu muito da cara dele. Eu ouvi a risada da sacada. As pernas do José iam abrindo, e o mendigo ia rindo, abriam mais, e o pobre babava de rir.
An321: Você viu da janela o mendigo babando?
eu: Aff, ok, não vi… Mas do jeito que ele tava rindo alto, deu pra imaginar. Mas eu não imaginei o que aconteceu depois.
An321: O que?
eu: O José se rasgou no meio. O mendigo parou de rir na hora, ficou chocado!
An321: Ele parou de rir?
eu: Ué, e tinha como continuar rindo? Eu fiquei desesperada. Você não tem ideia de como é ver seu marido se rasgar no meio, se dividir, virar dois?
An321: Ouvi de casos assim.
eu: Pois é, você não ouviu de casos assim, você ouviu do caso do José. Deu em tudo que é jornal. Me ligaram, dei entrevista. Fiquei chique!
An321: Uma estrela! Hahahah
eu: Heheheh Pois é. Mas fiquei traumatizada. Quando ele se rasgou no meio, as tripas escorreram, parte ficou pendurada, a outra parte ele carregava.
An321: Como assim?
eu: Quando ele se rasgou, quando cada pé ia pra um lado diferente, metade do corpo continuou indo para o mini-Extra, né? Era a metade que tava com larica. A outra metade tava a fim de dar uma volta, de sair por aí mesmo. Essa metade fujona segurou a porção de tripas que lhe cabia e seguiu caminho, dobrando a esquina.
An321: Mas como?
eu: Foi pulando, igual Saci.
An321: E o sangue?
eu: Isso foi estranho. Não saiu sangue. Exceto pela exposição das nojeiras internas, era como se existisse um coração para cada metade. Só sei que daí uma metade foi pro mini-Extra.
An321: Ele não voltou pra casa?
eu: Não! Oha que doido esse José! Ele não voltou, agiu como se tudo aquilo fosse normal, como se no máximo tivesse peidado no elevador.
An321: E você?
eu: Meu, eu estava pronta pra dar uma bronca nele quando ele voltasse pra casa. Fiquei até pensando se eu tinha que dar duas broncas para quando cada metade retornasse…
An321: Putz, foda mesmo.
eu: Foda? Eu fiquei puta. Menina, que papelão. Mas aí a metade que foi no mini-Extra foi a metade que ficou com o celular no bolso. Me ligou do mini-Extra pedindo para eu levar dinheiro lá, porque a carteira, claro, tinha ficado no bolso do farrapo de jeans que vestia quem? A outra metade!
An321: Cara, que saco!
eu: Sem noção. Ele agindo assim, comigo, como se fosse normal. E querendo que eu fosse lá no mini-Extra, me expor. Todo mundo conhece a gente.
An321: Merda.
eu: Total. Daí eu mandei ele voltar logo, e que voltasse com o resto dele, porque eu não ia perder mais tempo com ele se tivesse, eu também, que me dividir em duas para brigar com uma e depois com outra metade.
An321: Você tá certa! Não rola, mesmo, amiga!
eu: Não, mas aí o doido tem que ir saltitando bairro afora, atrás da metade transviada. Daí ele ficou uma semana fora, só porque vestiu sapatos diferentes, se dividiu e perdeu metade de si mesmo.
An321: Putz.
eu: Putz? Ele voltou fedendo a merda, urina e cerveja. A metade que fugiu foi pedindo goró, né, de bar em bar, abraçada nas próprias tripas. Os viados dos barmen davam, assim, de boa, como se fosse comum dar bebida pra gente repartida.
An321: Bom, mas essa metade tava com a carteira, né?
eu: Mas nem encostou nela! Ia pedindo. E se fizessem alguma maldade? E se colocassem um boa noite cinderela e roubassem o rim? Tava fácil. Vai que fizeram isso… O José não me conta. Ele voltou fedendo e mau remendado. Só sei que as metades se juntaram de novo em algum momento lá, e assim que se juntaram, ele tirou os sapatos, pra evitar pepinos. Chegou com o pé preto. Ele jura que foi isso dos sapatos difenrentes que deu o problema. Mas, sei lá, não tenho certeza.
An321: Não? Como assim?
eu: Poxa, pensa, e se foi tudo uma desculpa? E se o que ele queria era ficar um tempo longe de mim? E se a metade que fugiu fosse a metade que diz mais sobre o José, enquanto a metade que ficou fosse a metade dissimulada e mentirosa, aquela que diz que ama pra me levar pra cama?
An321: Será? Acho que não. Sinceramente. Se ambos voltaram é porque te amam.
eu: Amiga, sei lá. Só sei que não é mais a mesma coisa, sabe? Eu fico desconfiada. Não me sinto tão confortável. Agora sinto como se eu dormisse com dois, às vezes parece que vejo através dele, da fenda que divide o corpo, que se abre entre os pontos.
An321: Ele ainda não grudou por inteiro?
eu: Não. É esquisito. Fico pensando que talvez uma parte se descole e saia porta afora. Que eu tenha que correr atrás, porque a outra ficou dormindo na cama.
An321: Putz.
eu: É. Mas, sei lá…
An321: Que foi?
eu: Nada… Sei lá…
An321: Que???
eu: Na verdade, verdade mesmo…
An321: Diz!
eu: É que não falei isso pra ninguém…
An321: Fala logo!
eu: Ok, vou dizer antes que eu desabe. A verdade é que eu acho que isso aconteceu porque ele tem outra. Só pode ser.
An321: Outra? Como assim? Não é viagem da sua cabeça? Tem como provar?
eu: Se tivesse não tava eu aqui achando… Eu só acho. Ele tem outra, com certeza, e tentou me largar naquela noite. Ao menos uma parte tentou.
An321: Homens…
eu: Pois é, amiga, homens! Mas eu amo ele. Acho que vou é dar um tempo, parar de pensar nisso. Senão eu é que vou acabar dividida entre a dúvida e a insegurança.
An321: É, desencana. Vou pegar mais chá, depois te conto do Jorge. O que ele fez foi muito pior quando a gente se separou, lembra? Me dá cinco que já volto e te conto.
eu: Tá. Agora vou fazer aquele key, mas pode ir falando que tô ouvindo.
An321: …
eu: …
An321: …
eu: …
Tags:amor, aparência, autoconhecimento, caminhos, divisão, existencialismo, fantasia, mulher, realidade, realismo fantástico, relacionamento, sangue, sapatos, sexo, sociedade, sorvete, tempo, vida

