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	<title>Elvis Já Morreu</title>
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	<description>Contos, crônicas e anotações</description>
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		<title>Elvis Já Morreu</title>
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		<title>Dois</title>
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		<pubDate>Mon, 29 Aug 2011 17:45:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Bravo Bucco</dc:creator>
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		<description><![CDATA[eu: Outro dia aconteceu um troço engraçado com o José. A gente fez amor, porque ele estava muito excitado. Me beijava toda, me apertava, me apalpava e fazia aquelas outras coisas. An3: Que coisas? eu: Ah, ele fez tudo, não sabe não? An321: Sei, mas quero ver você dizer. eu: Ouve, o que foi interessante [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=elvisjamorreu.wordpress.com&amp;blog=2942205&amp;post=282&amp;subd=elvisjamorreu&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div><strong>eu:</strong> Outro dia aconteceu um troço engraçado com o José. A gente fez amor, porque ele estava muito excitado. Me beijava toda, me apertava, me apalpava e fazia aquelas outras coisas.<br />
<strong>An3:</strong> Que coisas?<br />
<strong>eu:</strong> Ah, ele fez tudo, não sabe não?<br />
<strong>An321:</strong> Sei, mas quero ver você dizer.<br />
<strong>eu:</strong> Ouve, o que foi interessante veio depois. A gente fez esse amor todo, repentino, gostoso. Eu não gozei na hora, mas depois me resolvi. Ele gozou fora e se jogou de lado, estirado, com a cabeça afundada no travesseiro.<br />
<strong>An321:</strong> Isso não é novidade.<br />
<strong>eu:</strong> Não mesmo. O que achei estranho foi o telefonema.<br />
<strong>An321:</strong> Telefonema? Mas e o sexo?<span id="more-282"></span></div>
<div><strong>eu:</strong> Então, me ouve que vou chegar lá. Eu fui me limpar e ouvi ele roncar, aí peguei a ducha e lavando me refestelei. Demorei uns trinta minutos imaginando que ele gozava era depois de mim, e não antes.</div>
<div><strong>An321:</strong> Homens!<br />
<strong>eu:</strong> Pois é. Quando voltei ao quarto, afim de ver a novela nos braços dele, está sentado na cama, acordado, achando a TV super interessante. Normalmente ele dorme até o dia seguinte, mas quando voltei, ele tinha despertado, parecia que na cabeça dele era já de manhãzinha. Sentei na cama, nem perguntei nada, pedi para ele se deitar, para descansar. Ele se recostou, me olhou nos olhos, disse que me amava, mas que estava com vontade de tomar sorvete.<br />
<strong>An321:</strong> Sorvete?<br />
<strong>eu:</strong> Isso. Eram umas nove e meia, a Norma esboçava um plano para prender o Leo para sempre, mas ele veio com esse papo, então perdi o fio da meada. Ele levantou, se vestiu, foi à sapateira e pegou dois pares de sapatos. Meteu os pés, cada um em um pé de um par diferente!<br />
<strong>An321:</strong> Ele saiu com sapatos diferentes?<br />
<strong>eu:</strong> Saiu. E não voltou por uma semana.<br />
<strong>An321:</strong> Péraí. Faz quanto tempo que a gente não se fala, amiga?<br />
<strong>eu:</strong> Vixe, uns dois meses.<br />
<strong>An321:</strong> É?<br />
<strong>eu:</strong> Escuta! Daí ele saiu. Não, calma, daí ele disse que estava sentindo um negócio estranho, uma vontade que era dele, mas não somente dele, uma vontade que era dele e de cada pé, como se cada pé pudesse andar por caminhos completamente diferentes.<br />
<strong>An321:</strong> Como assim? Cada um pra um lado?<br />
<strong>eu:</strong> Você entendeu! Isso mesmo. Ele abriu um espacato assim, depois de contorcer muito a cara, fechou de novo as pernas e saiu perambulando, todo torto. Ia pra lá, depois mudava de direção. Sempre em frente, mas como se estivesse dividido, como se fosse orientado por dois GPS.<br />
<strong>An321:</strong> Ele estava bêbado.<br />
<strong>eu:</strong> Depois de termos feito amor? Ele não estava. Ele fica sóbrio depois que goza. Ou melhor, ele dorme depois que goza, especialmente quando está bêbado. Ele parecia mesmo era um condutor de dois barcos, sei lá.<br />
<strong>An321:</strong> Mas e ele sumiu?<br />
<strong>eu:</strong> Então, não! Ele saiu. E da janela eu vi ele tentar ir para o mini-Extra comprar o sorvete. O passo era a coisa mais ridícula: uma perna ia numa direção, a outra apontava outro caminho. Ele parecia um indeciso andando pelos dois caminhos que saem duma encruzilhada.<br />
<strong>An321:</strong> Isso não, não dá!<br />
<strong>eu:</strong> Calma! Fica pior, muito pior. Fica de um jeito que você vai fechar o gtalk na minha cara. Mas nem adianta, porque daí vou escrever o resto e te mandar no email mesmo. Então presta atenção.<br />
<strong>An321:</strong> To fazendo um chá, mas tô perto.<br />
<strong>eu:</strong> Ok. Chá de que?<br />
<strong>An321:</strong> De morango.<br />
<strong>eu:</strong> Uhm, já pensou como é estranho a gente tomar chá de morango? Chá devia ser de erva, de folhas. Morango a gente devia comer, a fruta é mais gostosa que o chá. E tem o suco&#8230;<br />
<strong>An321:</strong> Volta pro José.<br />
<strong>eu:</strong> Tá. Então, ele tava nesse passo maluco, dividido. Fiquei com medo quando foi atravessar a rua. Parecia que não ia dar tempo, que ele ia ficar ali perdido e um caminhão ia esmagá-lo. Quando o sinal abriu eu berrei mesmo. O vizinho do 52, aquele gordo suado que pegou o elevador naquele dia da pizza com a gente, lembra?<br />
<strong>An321:</strong> Ahã.<br />
<strong>eu:</strong> Ele apareceu na varanda, disse psiu! Odeio ele. Mas eu gritei de novo, nem tchum, e o José deu um passo atrás, um pra frente, outro, puxou a perna rebelde com as mãos, e chegou na calçada. Fiquei assustada, achei que ele ia morrer.<br />
<strong>An321:</strong> É mesmo.<br />
<strong>eu:</strong> A sorte é que não passou nenhum carro, nem moto, nem bicicleta! Hehehehhe<br />
<strong>An321:</strong> Ahahahah Você está inventando tudo isso, né! Fazendo piada comigo.<br />
<strong>eu:</strong> Não, eu juro! É verdade. Você acha que eu ia perder esse tempo todo? Tenho que terminar um keynote aqui. Daqueles, sabe?<br />
<strong>An321:</strong> &#8230;<br />
<strong>eu:</strong> Sabe?<br />
<strong>An321:</strong> &#8230;<br />
<strong>eu:</strong> Hei!<br />
<strong>An321:</strong> &#8230;<br />
<strong>eu:</strong> Vou te mandar um email enooooooorme!<br />
<strong>An321:</strong> Oi, oi! Eu tava pegando a água que ferveu. É por isso que amo a vida de frila.<br />
<strong>eu:</strong> Invejaaaaa!!!! Mas, então, o José foi andando, um passo a frente, dois pra trás, três pra frente, uma coisa bizarra, quando, no meio do caminho, ele abriu o espacato de novo.<br />
<strong>An321:</strong> Na rua?<br />
<strong>eu:</strong> Ridículo! Na hora eu pensei em acabar tudo. Tinha um mendigo tomando cachaça em uma garrafinha de dolly guaraná, ou sei lá do que, que riu muito da cara dele. Eu ouvi a risada da sacada. As pernas do José iam abrindo, e o mendigo ia rindo, abriam mais, e o pobre babava de rir.<br />
<strong>An321:</strong> Você viu da janela o mendigo babando?<br />
<strong>eu:</strong> Aff, ok, não vi&#8230; Mas do jeito que ele tava rindo alto, deu pra imaginar. Mas eu não imaginei o que aconteceu depois.<br />
<strong>An321:</strong> O que?<br />
<strong>eu:</strong> O José se rasgou no meio. O mendigo parou de rir na hora, ficou chocado!<br />
<strong>An321:</strong> Ele parou de rir?<br />
<strong>eu:</strong> Ué, e tinha como continuar rindo? Eu fiquei desesperada. Você não tem ideia de como é ver seu marido se rasgar no meio, se dividir, virar dois?<br />
<strong>An321:</strong> Ouvi de casos assim.<br />
<strong>eu:</strong> Pois é, você não ouviu de casos assim, você ouviu do caso do José. Deu em tudo que é jornal. Me ligaram, dei entrevista. Fiquei chique!<br />
<strong>An321:</strong> Uma estrela! Hahahah<br />
<strong>eu:</strong> Heheheh Pois é. Mas fiquei traumatizada. Quando ele se rasgou no meio, as tripas escorreram, parte ficou pendurada, a outra parte ele carregava.<br />
<strong>An321:</strong> Como assim?<br />
<strong>eu:</strong> Quando ele se rasgou, quando cada pé ia pra um lado diferente, metade do corpo continuou indo para o mini-Extra, né? Era a metade que tava com larica. A outra metade tava a fim de dar uma volta, de sair por aí mesmo. Essa metade fujona segurou a porção de tripas que lhe cabia e seguiu caminho, dobrando a esquina.<br />
<strong>An321:</strong> Mas como?<br />
<strong>eu:</strong> Foi pulando, igual Saci.<br />
<strong>An321:</strong> E o sangue?<br />
<strong>eu:</strong> Isso foi estranho. Não saiu sangue. Exceto pela exposição das nojeiras internas, era como se existisse um coração para cada metade. Só sei que daí uma metade foi pro mini-Extra.<br />
<strong>An321:</strong> Ele não voltou pra casa?<br />
<strong>eu:</strong> Não! Oha que doido esse José! Ele não voltou, agiu como se tudo aquilo fosse normal, como se no máximo tivesse peidado no elevador.<br />
<strong>An321:</strong> E você?<br />
<strong>eu:</strong> Meu, eu estava pronta pra dar uma bronca nele quando ele voltasse pra casa. Fiquei até pensando se eu tinha que dar duas broncas para quando cada metade retornasse&#8230;<br />
<strong>An321:</strong> Putz, foda mesmo.<br />
<strong>eu:</strong> Foda? Eu fiquei puta. Menina, que papelão. Mas aí a metade que foi no mini-Extra foi a metade que ficou com o celular no bolso. Me ligou do mini-Extra pedindo para eu levar dinheiro lá, porque a carteira, claro, tinha ficado no bolso do farrapo de jeans que vestia quem? A outra metade!<br />
<strong>An321:</strong> Cara, que saco!<br />
<strong>eu:</strong> Sem noção. Ele agindo assim, comigo, como se fosse normal. E querendo que eu fosse lá no mini-Extra, me expor. Todo mundo conhece a gente.<br />
<strong>An321:</strong> Merda.<br />
<strong>eu:</strong> Total. Daí eu mandei ele voltar logo, e que voltasse com o resto dele, porque eu não ia perder mais tempo com ele se tivesse, eu também, que me dividir em duas para brigar com uma e depois com outra metade.<br />
<strong>An321:</strong> Você tá certa! Não rola, mesmo, amiga!<br />
<strong>eu:</strong> Não, mas aí o doido tem que ir saltitando bairro afora, atrás da metade transviada. Daí ele ficou uma semana fora, só porque vestiu sapatos diferentes, se dividiu e perdeu metade de si mesmo.<br />
<strong>An321:</strong> Putz.<br />
<strong>eu:</strong> Putz? Ele voltou fedendo a merda, urina e cerveja. A metade que fugiu foi pedindo goró, né, de bar em bar, abraçada nas próprias tripas. Os viados dos barmen davam, assim, de boa, como se fosse comum dar bebida pra gente repartida.<br />
<strong>An321:</strong> Bom, mas essa metade tava com a carteira, né?<br />
<strong>eu:</strong> Mas nem encostou nela! Ia pedindo. E se fizessem alguma maldade? E se colocassem um boa noite cinderela e roubassem o rim? Tava fácil. Vai que fizeram isso&#8230; O José não me conta. Ele voltou fedendo e mau remendado. Só sei que as metades se juntaram de novo em algum momento lá, e assim que se juntaram, ele tirou os sapatos, pra evitar pepinos. Chegou com o pé preto. Ele jura que foi isso dos sapatos difenrentes que deu o problema. Mas, sei lá, não tenho certeza.<br />
<strong>An321:</strong> Não? Como assim?<br />
<strong>eu:</strong> Poxa, pensa, e se foi tudo uma desculpa? E se o que ele queria era ficar um tempo longe de mim? E se a metade que fugiu fosse a metade que diz mais sobre o José, enquanto a metade que ficou fosse a metade dissimulada e mentirosa, aquela que diz que ama pra me levar pra cama?<br />
<strong>An321:</strong> Será? Acho que não. Sinceramente. Se ambos voltaram é porque te amam.<br />
<strong>eu:</strong> Amiga, sei lá. Só sei que não é mais a mesma coisa, sabe? Eu fico desconfiada. Não me sinto tão confortável. Agora sinto como se eu dormisse com dois, às vezes parece que vejo através dele, da fenda que divide o corpo, que se abre entre os pontos.<br />
<strong>An321:</strong> Ele ainda não grudou por inteiro?<br />
<strong>eu:</strong> Não. É esquisito. Fico pensando que talvez uma parte se descole e saia porta afora. Que eu tenha que correr atrás, porque a outra ficou dormindo na cama.<br />
<strong>An321:</strong> Putz.<br />
<strong>eu:</strong> É. Mas, sei lá&#8230;<br />
<strong>An321:</strong> Que foi?<br />
<strong>eu:</strong> Nada&#8230; Sei lá&#8230;<br />
<strong>An321:</strong> Que???<br />
<strong>eu:</strong> Na verdade, verdade mesmo&#8230;<br />
<strong>An321:</strong> Diz!<br />
<strong>eu:</strong> É que não falei isso pra ninguém&#8230;<br />
<strong>An321:</strong> Fala logo!<br />
<strong>eu:</strong> Ok, vou dizer antes que eu desabe. A verdade é que eu acho que isso aconteceu porque ele tem outra. Só pode ser.<br />
<strong>An321:</strong> Outra? Como assim? Não é viagem da sua cabeça? Tem como provar?<br />
<strong>eu:</strong> Se tivesse não tava eu aqui achando&#8230; Eu só acho. Ele tem outra, com certeza, e tentou me largar naquela noite. Ao menos uma parte tentou.<br />
<strong>An321:</strong> Homens&#8230;<br />
<strong>eu:</strong> Pois é, amiga, homens! Mas eu amo ele. Acho que vou é dar um tempo, parar de pensar nisso. Senão eu é que vou acabar dividida entre a dúvida e a insegurança.<br />
<strong>An321:</strong> É, desencana. Vou pegar mais chá, depois te conto do Jorge. O que ele fez foi muito pior quando a gente se separou, lembra? Me dá cinco que já volto e te conto.<br />
<strong>eu:</strong> Tá. Agora vou fazer aquele key, mas pode ir falando que tô ouvindo.<br />
<strong>An321:</strong> &#8230;<br />
<strong>eu:</strong> &#8230;<br />
<strong>An321:</strong> &#8230;<br />
<strong>eu:</strong> &#8230;</div>
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		<title>O premiado</title>
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		<pubDate>Thu, 16 Jun 2011 15:54:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Bravo Bucco</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Todo dia esse Fabiano aparece aqui, calçando alpargatas furadas e carregado de seus poucos pertences. Traz um aió de alça remendada a tiracolo, no qual pendura um casaco de motoboy todo esfolado. A camisa manchada é aberta até o meio do peito. Tem olhos azuis, cabelos e barba ruivos, pele queimada. Parece um retirante holandês. Tomasse banho não seria pobre. Mas vem fedido, com cães em volta. Chama-os Moby e Dick: um macho e uma fêmea prenhe que parecem limpos, mais que o dono.</p>
<p><span id="more-275"></span>Uns meses atrás esse Fabiano vinha, pegava uma porção dos bilhetes, rabiscava-os, olhava os números sorteados expostos no cartaz e saía deixando seu cheiro aqui na lotérica. Moby e Dick esperavam na rua. Quando Fabiano se demorava mais que dois minutos, seu Inácio o empurrava fora, evitando tocá-lo para não precisar lavar as mãos. Fabiano ficava ressabiado, mas sumia  de vista, cabisbaixo, murmurando nada que alguém entendesse. Dia seguinte voltava, franzino.</p>
<p>Agora, o hábito é outro. Faz questão de parar na frente da casa, fica espiando, assobia, ressoa um psiu. Quem está dentro olha, depois desolha, faz que não vê aquele comum cuja miséria torna desconhecido. Eu vejo sempre, fico com dó, tenho o coração mole como diz meu namorado, mas tenho ordem de ignorar o homem que, tivesse outro cheiro, não seria repulsivo. Fico com pena porque Fabiano sabe falar mas não sabe pensar, age que nem bicho. Ele vem e fica ali, espreitando, com um daqueles rascunhos do jogo rabiscados na mão. Sua aparência afasta quem entraria para jogar.</p>
<p>Quando o seu Inácio se enche desse espantalho, sai detrás da porta blindada, abre a bancada, pede licença aos quatro clientes da fila e ruma à porta. Para sobre a soleira, se equilibrando com ar ameaçador. Dick late e dá voltas em torno de si; Moby se lambe. Fabiano parece minúsculo, enquanto seu Inácio é um gigante. Pobreza não é menos que riqueza? Depois de um esforço cavalar, Fabiano rosna. Até que junta umas sílabas:</p>
<p>-É o premiado!</p>
<p>Sempre é assim. O seu Inácio balança a cabeça; espaçoso, enxota o Fabiano, que sai reduzido. No dia seguinte o mendigo volta, mas não mendiga. Psiu! Depois de meia hora, seu Inácio pisa na soleira e Fabiano diz como quem limpa a garganta:</p>
<p>- É o premiado!</p>
<p>A voz gutural não assusta o chefe, que dá de ombros. Diz que vai chamar a polícia. Fabiano geme outra vez.</p>
<p>-É o premiado!</p>
<p>Ao ver seu Inácio sacar do celular, Fabiano recua. Estala os dedos das mão peludas como que ordenando Moby e Dick a se mexer. Se os cães não o acompanham, volta um passo atrás e dá-lhes um safanão, com o peito largo. Os cães então o seguem, apequenados.</p>
<p>Desde que comecei a trabalhar aqui, Fabiano aparece todo dia. Antes, vinha com uma esperança desanimada, agora, volta com uma tristeza comprida. Até já sugeri de a gente fazer uma vaquinha, dizer que ele ganhou cinquenta, cem, até duzentos &#8211; apenas o suficiente para libertá-lo daquela fé, do bilhete que preencheu mas nunca jogou. Entretanto, são todos mesquinhos e seu Inácio fala que é contra, que vai que o Fabiano acha pouco, que se enfeza e ataca todo mundo? Quando ouço isso fico sem argumento, acho até que pareço o pobre. Balanço a cabeça em acordo, olho os outras caixas e, muda, aceito pouco pela esperança de outro coitado.</p>
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		<title>Mãe da revolução</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Feb 2011 17:39:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Bravo Bucco</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Ouvi no rádio que a Coluna avançava. A voz anunciava que o governo tomaria medidas para conter a peregrinação. O Prestes acabaria. O Prestes e os comunistas. Meu pai concordava, balançava o queixo sem mover a cabeça. Os óculos eram presos por pinça na ponta do nariz. Quando chegava a noite, ele se punha na frente do rádio e calculava as despesas da casa enquanto minha mãe cosia ou cozinhava, às vezes equilibrava as duas tarefas. Às vezes fazia tudo ao mesmo tempo. Fazia tudo.</p>
<p>Eu ainda estava dividida entre ser contrária aos desejos de meus pais, ou seguir a vida que eles desejavam para mim. Ou seguir a vida que eles projetaram para mim. Em casa, planejava-se trabalhar, ter filhos, vê-los trabalhar e ter filhos. Meus pais buscavam meu marido. Eu fugia desses assuntos. Eu escapulia, saía para a varanda e, minutos depois, aparecia o Antonio. Íamos para os fundos da casa. Nenhum vizinho avizinhava. A gente se conhecia havia algum tempo. Estávamos juntos havia algum tempo. Meu pai não sabia, minha mãe não queria, mas deixava. Mas eu freava o Antonio e sua alegria. Todo dia. Até que ele foi além.</p>
<p><span id="more-254"></span>Molhou minha orelha, arrepiou-me os sentidos. Pousou a mão esquerda sobre minha coxa direita, enquanto beijava meu pescoço. Depois abraçou-me, tomou-me a boca. Eu gostei. Eu gostei muito. Impossível esquecer. Deixei-me ser pega. Na hora em que eu estava dominada, ele fez a proposta. Me pediu, me perguntou. Segurei suas duas mãos, enquanto ele falou, conjeturou. Fez sumir a espontaneidade. Expôs um raciocínio. Argumentou. Ele era assim: tudo pela revolução. Tirou do bolso um panfleto, entregou a mim. Prometi pensar.</p>
<p>O Antonio queria fundar. Queria criar seu partido. Queria dar à luz a prole que mudaria o mundo. Depois daquele dia, ele passou a me domar a inteligência. Sempre que nos víamos, perguntava quem era Lênin, ou Marx, dizia de economia, de política. Eram muitas perguntas. Eram muitas questões. Era o início de algo. Era o fim do mundo. O mundo mudava. Antonio trazia os indícios no bolso. Lia livros da Rússia, assinava jornais que chegavam da Itália por navio. Apoiava o Prestes. O Antonio era de esquerda, que ninguém me ouvisse. Eu tinha medo disso. Gostava. Queria.</p>
<p>Passei a ler os panfletos que me trazia. Pulei para livros vermelhos, amarelos, negros, proibidos. Convenci-me e um dia, com sua mão sobre minha coxa e seus lábios em minha nuca, disse-lhe que aceitava. Teria com ele um filho para testemunhar a revolução. Teria dele um filho que fosse uma revolução. Aí ele me tomou por inteira. Os lábios de Antonio conheceram mais que o pescoço; suas mãos, a esquerda e a direita, atravessaram fronteiras. Os pensamentos ganharam um pai. A ação exigiu sua mãe.</p>
<p style="padding-left:180px;">&nbsp;</p>
<p><em><br />
</em></p>
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		<title>DESFLAGRANTE</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Jan 2011 19:25:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Bravo Bucco</dc:creator>
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		<description><![CDATA[&#8220;De três maneiras é um homem conhecido: por seu COPO, por seu BOLSO e por sua IRA&#8221; Minha mulher entrou no quarto. Tremia. Olhou-me com uns olhos de pedinte, disse que aquilo não estava certo. -Amor, vou confessar uma coisa. Eu assistia TV, pensava na boca da Fátima Bernardes, aquela boca que sempre entorta quando [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=elvisjamorreu.wordpress.com&amp;blog=2942205&amp;post=243&amp;subd=elvisjamorreu&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<h4 style="padding-left:240px;">&#8220;De três maneiras é um homem conhecido: por seu COPO, por seu BOLSO e por sua IRA&#8221;</h4>
<p>Minha mulher entrou no quarto. Tremia. Olhou-me com uns olhos de pedinte, disse que aquilo não estava certo.</p>
<p>-Amor, vou confessar uma coisa.</p>
<p>Eu assistia TV, pensava na boca da Fátima Bernardes, aquela boca que sempre entorta quando ela fala palavras com muitos tês.</p>
<p>-Foi só o Roberto, eu juro.</p>
<p>Mudei o canal. Na Record, tinha uma sósia da Fátima. Mas essa era bonitona, e nem reparei na boca.</p>
<p>-O que tem ele? &#8211; perguntei, desinteressado. Minha esposa estava comigo havia quinze anos. E todo mês surgia uma calamidade que parecia se resolver com o apertar de um interruptor.</p>
<p>-Só dei pra ele.</p>
<p>-Como é?</p>
<p><span id="more-243"></span>Finalmente olhei para ela. Vi seus olhos esbugalhados ensopados, o nariz vermelho e escorrido, a boca curvada para baixo e o queixo todo enrugado de tensão. Ela estava com algum problema. Desliguei o televisor depois que a âncora anunciou uma enchente. Recapitulei o que achava ter ouvido: o Roberto era um amigo nosso, casado com a Lucinha, uma madame fresca, bonita. Algumas vezes eu sonhei que era casado com a Lucinha, que a gente viajava pelo mundo, andava de mãos dadas e trocávamos selinhos. O Roberto tinha morrido. Foi o que pensei.</p>
<p>-Ele era nosso amigo. Agora não é mais. Coisas da vida. &#8211; eu disse, e pulei para o outro lado da cama. Puxei minha mulher pela cintura e a abracei. Ela ficou ali em pé, babando na minha cabeça, molhando meu couro cabeludo com suas lágrimas.</p>
<p>-Mas, só isso?</p>
<p>-A vida é assim. &#8211; consolei-a. &#8211; Além disso, eu nem era tão amigo dele assim. Você que o conheceu naquele cursinho de degustação de vinhos brancos&#8230;</p>
<p>-Sim, mas e o que você sente por mim? &#8211; ela disse.</p>
<p>-Amor, amor. Sinto amor. Não sei o que faria se te perdesse ou se você me deixasse.</p>
<p>-Deixasse? Você é que vai&#8230;</p>
<p>Aí me dei conta de que ela tinha roupas nas mãos. E de que as roupas eram minhas. Ouvi-a dizer aos berros e prantos que não era ouvida, que precisava de um homem, de alguém que pusesse nela com uma vontade punitiva. Que nisso o Roberto era bom, e eu era um&#8230; Ela disse que nisso eu era um bosta.</p>
<p>A ficha caiu. Perdi o ar. Parecia suspenso no tempo. Cada gesto dela durava uma eternidade. Ela tinha me traído, e não contente, me expulsava. Jogava minhas roupas no chão, ao lado de uma mochila velha.</p>
<p>-Ele abandonou a Lucinha &#8211; contava entre suspiros lacrimosos. Chorava de alegria? De raiva? O expurgo doía? Satisfazia?</p>
<p>-Ele vem para cá&#8230; &#8211; caiu no chão, com a cabeça sangrando. Na porta do quarto, Roberto tinha uma arma fumegante nas mãos.</p>
<p>-Ei, babaca. Acorda. &#8211; ele disse.</p>
<p>Estava tonto, boquiaberto e paralisado. Tinha um pedaço dela na minha canela.</p>
<p>-Vem cá, pega o cano. Você fez bem, vem cá.</p>
<p>Quando peguei a arma, ele apertou minha mão, mirou o próprio pé e me fez mover o gatilho. Caiu sangrando.</p>
<p>Entendi sua intenção. Achou que iam me culpar por algo que não fiz. Apontei a arma para minha cabeça. Vazia. Duas balas. Dois atingidos. A relação de todos continuava a mesma, eles como cúmplices, e eu de fora. No andar de cima ouviu-se o auê. O interfone tocou. Fiquei na cama, sentado, olhando o corpo dela ficar pálido. O Roberto rastejou para a sala, deixando um rastro de sangue pelo corredor. Quando me dei conta, a arma continuava na minha mão, apoiada sobre o joelho esquerdo. Ela ia me trocar pelo desgraçado. O curso, a amizade surgida depois, isso os aproximara. Ou será que nunca houve curso? Mas ela chegava em casa com hálito de vinho, se não tinha curso, era o quê? Levantei, corri para a sala.</p>
<p>-Seu, seu&#8230; &#8211; não conseguia articular. Queria matá-lo. Os olhos de Roberto expressaram medo. Aí a porta abriu de supetão, chutada por um policial de doze em punho. O cabo Sérgio me viu com a arma na mão, em pé diante de Roberto, que começou a chorar &#8211; encenação. O guarda recuou.</p>
<p>-Largue a arma. Jogue aqui.</p>
<p>Fiquei sem entender a cena, mas entendi a ordem. Fiz o que me mandaram. E se o que fiz parece o que não fiz, vou deixar claro: eu não agi em defesa da honra e também não agi em legítima defesa.</p>
<p>-E não existe flagrante sem ação &#8211; acrescenta o advogado.</p>
<p>Movo a cabeça. Concordo em silêncio, mas não sei o que a afirmação significa.</p>
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		<title>Pátina e mobília</title>
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		<pubDate>Mon, 03 May 2010 02:17:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rafael Bravo Bucco</dc:creator>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>O João era um sozinho. A vida oprimia-lhe do trato digestivo às relações sociais. Por isso, evitava de comer a barbear-se. Preferia uma imagem de pária a uma de bonachão. João era tudo, menos humano. Desprezava as redes sociais, vivia sem interagir com outros, contentava-se em ser esmagado pela roda vida. A rotina era o melhor dos limites, o conforto necessário, o escudo que o fazia acreditar em uma existência plena quando distanciado de quaisquer riscos. João preservava-se. Não queria se expor, não queria se ferir, e para isso, satisfazia-se com viver de poucos risos. Que fosse introspectivo, então. Não considerava-se tal. Cria ser doutor de sua vida, senhor do próprio destino, escondido em fantasia.</p>
<p>Um dia, cruzando a rua, foi atropelado. João, inumano, sem próximos, foi levado ao hospital e encaminhado à unidade de tratamento intensivo. Entubado, não abria os olhos, não sentia as pernas, os braços, nem respirava sozinho. Estava morto. Tanto precaveu-se&#8230; Enfermeiras vestidas de verde entravam, tomavam a pressão, saíam. Conversavam alto na porta da unidade. O clínico geral olhou as pupilas, balançou a cabeça. Passou uma colher na sola dos pés, não encontrou reflexo. O homem já era. Chamou a junta, entregou-lhe um relatório seco, de poucas palavras, sobre aquele João, cuja carteira não trazia telefones.</p>
<p><span id="more-232"></span>Uma alma gentil dentro do hospital olhou o RG e procurou na internet por sobrenomes, possíveis parentes, e os convocou. Chegou uma mulher esbaforida, descabelada, com um bebê a tira colo, chorando, gritando, perguntando-se se seria por isso que o celular do marido não tocava.</p>
<p>Era outro o motivo.</p>
<p>Quando entrou no quarto, a criança despertou e chorou. A mulher se recompôs. Num passe de mágica os cabelos voltaram ao lugar, e os olhos então debulhados de lágrimas, contiveram-se. Não era seu marido. Saindo, ainda brigou. Reclamou na portaria que tinha perdido dinheiro, gastado com Táxi para vir conferir um trote de mau gosto. Não lhe pagaram nada, mas ela bem que disse: &#8220;Vou processar&#8221;. Mas lá dentro, João restava, cada vez mais enrijecido, mantido por aparelhos, pi, pi, pipi, pi, pi&#8230;</p>
<p>Outra tentiva. Chegou, dessa vez, uma mulher e um velho. Eram de famílias diferentes, vieram separados, e se encontraram na entrada. Conversando com a atendente, se desentenderam.</p>
<p>&#8220;João é da minha família!&#8221; esbravejou o velho. &#8220;Ele é meu primo&#8221;, disse a prima. A atendente recorreu à instância superior. Chegou a enfermeira. Disse-lhes que não sabiam quem era o homem morto no quarto, aquele que contra qualquer protocolo mantinham vivo enquanto esperavam chegar um parente. Ela ia levá-los ao quarto, e quem o reconhecesse seria o felizardo triste familiar.</p>
<p>Primeiro foi o velho, enquanto a jovem, sem pressa, mas aflita, pensando nas providências a serem tomadas, amassava um folder que minutos antes descansava sobre a mesa de vidro na sala do café. O  velho sai satisfeito. Não era sua responsabilidade. Olhou para a provável prima daquele moribundo e balançou a cabeça em pêsames. Ela chorou por um instante e entrou no quarto. As lágrimas retornaram aos canais, o nó da garganta se desfez, e por um instante sentiu um alívio tão intenso que teria considerado a sensação um orgasmo.</p>
<p>Assim, sucediam os enganos. Vinha gente de todos os bairros, chamados pela alma caridosa que só queria encontrar quem velasse o homem. Mas não veio ninguém. Ou melhor, dos que vieram, ninguém era parente ou conhecia aquele corpo mantido vivo artificialmente. João era um sozinho. Preservara-se a vida toda, não seria nessa hora que seria exposto, descoberto.</p>
<p>Não havia quem o procurasse. O respirador agia. O leito no qual restava era mais e mais necessário. O SUS pagava pouco. Era doador de órgãos.</p>
<p>Depois de 48 horas sem comparecer ao trabalho, o chefe foi atrás. Ou melhor, mandou o boy ir. O jovem perguntou ao porteiro, que lembrou do dia em que João saiu e não o viu voltar. O boy esperou ainda. Mudou o turno do porteiro. Outro vigia que não vira a volta do soturno.</p>
<p>No dia seguinte, o boy entregou papéis e a notícia. No jornal, o chefe pôs o anuncio de abandono de emprego, como manda a lei. João nunca não voltou. Ninguém nunca se importou. Para todo mundo na empresa, ele tinha evaporado.</p>
<p>A memória em torno do homem só veio à tona quando condomínio, aluguel e outras contas cumularam. Bateram na porta, muito. O proprietário trouxe chaves reserva. Quando entrou, o apartamento vazio era só poeira. O rádio relógio havia queimado de tanto tocar desde o dia seguinte ao atropelamento.</p>
<p>Antes de cancelar o contrato, acionou a polícia, que buscou registros e descobriu um João, sozinho, enterrado como indigente depois que nenhuma pessoa comparecera para reclamar parentesco no instituto médico.</p>
<p>Por sorte, João morrera longe do apartamento. Em um mês, o imóvel estava locado novamente &#8211; era bom, espaçoso, bem localizado. E, benefício maior, estava todo mobiliado. Ali, caso tivesse se entregado à vida, teria vivido João, que não merecia epitáfio. Agora se mudaria para lá alguém de que outros se lembrariam e cujas vidas talvez mereça ser contada. Quem sabe, até, uma família com um casal de filhos e um yorkshire.</p>
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