O mais infeliz dos nus

•08/04/2009 • 1 Comentário

A fumaça negra que saía da câmara o enchia de expectativa. Antecipava o momento em que entraria ali, queimaria e se tornaria passado. Não esperava, que as cinzas o resgatassem no tempo, tornassem-no eterno, ou o deixassem vivo para sempre.

Morrer não poderia ser assim tão difícil, mas em Auschwitz passar não tinha qualquer significado. Queria ser esquecido, cremado, apagado – não se importava com maus tratos ou tortura. Era, dos famintos, o que mais gostava daquilo. Sentia-se enebriado, tinha um coração sádico, e sonhava com o calor da câmara.

Que decepção teria se lá entrasse e respirasse gás. Ou que instisfação se participasse das filas de quatro ou cinco mortos com uma única bala. Queria o fogo, a danação de um momento que o levasse à redenção. Tremia ao ver uns magros pelados nas filas, sentia o prazer de ser um suicida sem culpa, excitava-se com o fim agonizante.

Aí, sem porquê, a guerra acabou. Ficara para trás na lista. Antes dele morreram velhos, mulheres e crianças. Às vésperas da própria morte, a vida ganhava outra perspectiva para todos, revestia-se de esperança e empreendedorismo, enquanto ele ficara de fora da contemplação. O desejo mais realizável seria o menos atendido.

Precisaria de mais dez anos até morrer, por qualquer que fosse o motivo. Mas naquele momento, o da abertura dos portões, naquela hora em que todos sentiam-se felizes por estarem abandonados e perdidos, sentira-se o mais infeliz dos nus. Que outro caminho seria melhor?

De volta à prancheta.

Tenho dificuldade em falar, por isso escrevo

•15/12/2008 • 1 Comentário

Sou muito ruim de conversa. Mal consigo empilhar fatos em ordem cronológica durante um diálogo. Começo pelo fim e termino com o meio da história. Ninguém ri das minhas piadas, e me acomodei em fazer graça sempre da mesma forma sarcástica e cruel – humor negro seguido de riso amarelo.

Acho que por isso gosto de escrever. Diante da tela consigo organizar minimamente os pensamentos. O que é atropêlo na fala, pode ou não ganhar ritmo quando eu quero no micro. Também posso apagar e recomeçar. 

Mas o material que pinta a tela vem da fala, está no outro. É criando problemas, falando besteira, que aprendo a escrever melhor.

Aí fujo, buscando a absolvição por meio do texto.

A ascensão

•20/11/2008 • Deixe um comentário

drplokta3

O homem via tudo de cabeça para baixo. Não enxergava nada corretamente. Aliás, via tudo com muita perfeição, sem distorção ou embaciamento algum, mas acostumara-se a ver as coisas por um ângulo reverso ao da visão dos seres comuns. O seu nariz, talvez por estar a menos de um palmo de seus olhos, era visto como qualquer um o veria, no entanto, se olhasse para sua ponta, não veria o solo, mas o céu. E assim, Maicow aprendeu a ver as coisas a mais de um palmo de distância de seu nariz, já que o que surgia mais próximo que esse limite era visto sob a perspectiva tradicional, o que o confundia. Talvez fosse este um dos motivos que corroborassem para Maicow nunca vir a manifestar a miopia; nunca precisou aproximar um livro que fosse para facilitar sua leitura. O astigmatismo, sim, talvez um dia o afetou, mas se ocorreu foi em avançada idade, e os óculos foram totalmente desnecessários, pois Maicow já se considerava um velho sábio e experiente demais para continuar lendo qualquer coisa.

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Quantos tipos de dor você conhece?

•22/10/2008 • Deixe um comentário

Já quebrei braço, dedos, usei aparelhos que apertavam os dentes, soquei paredes, me arranhei, me queimei em escapamento de moto, me senti traído, raspei joelho, levei soco, decepcionei alguém. Já senti algumas dores comuns, portanto. Mas…

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Quem se importa com o velho do restelo?

•10/09/2008 • Deixe um comentário

Os fatos de suas previsões eram inevitáveis.

Só havia motivos para ignorá-lo.

Que ficasse com o ancinho e se enterrasse com os vitupérios!